A solução é papel e caneta na mão

Ela desejou ter salvaguardado aqueles minutos naquele mesmo dia e mesma hora.

Sentiu o fogo consumir seu corpo na vontade arrebatadora de transcrever aquilo que lhe acontecia. Os chinelos que arrastavam no chão, deixando um som rascante cantador, simulando uma melodia ritmada de rasgos raspados, se misturavam com o arfar da respiração naquele momento reconhecida e percebida em ato, deixando cair em cada uma um esforço causado pela vontade de continuar o movimento que permite a vida.

A percepção de tal coisa a deixou em plácida paz, atormentada apenas pelos ruídos altos, mas não incômodos, que lhe acompanhavam inevitavelmente. Continuou caminhando, lúcida e consciente da vida que lhe agarrava até pelo barulho da água que se pôs a beber segundos depois, sorvendo os goles e caindo em pensamentos avoantes, que voavam altos e calmos. A correria atrapalhada e intensa em que outrora eles se encontravam foi engolida por algum vácuo convocado pelo desejo de tranqüilidade, abriu-se um buraco inencontrável e foi-se embora tudo nele.

Só restaram os minutos fatídicos arreados pelo arrastar das chinelas, a respiração lembrada e o silêncio noturno.

Logo depois, ou durante, ou antes, e o tempo todo, a vontade de ter aquele momento sensível e reconfortante guardado em frases montadas a atingiu e ela quis. Pensou no mais tarde. Mais tarde teria tempo e teria sim que anotar o que lhe ocorreu, não se sentiria satisfeita se deixasse passar aquela cantoria companheira e deixasse mornar a quentura acolhedora que a envolveu durante um precioso tempo. Mais tarde ela teria tempo.

Mas conforme ele, o tempo, ia passando, ela ia deixando de ser aquela e sendo outra. Até que ela se transformou em mim: o eu que escreve sobre ela. Posso sentir o que ela sentiu porque por um momento estive nela, mas agora são somente os meus olhos que pairam sobre o som e a cor que residiam no cenário do acalento. O que ficou foi justamente o resto da lembrança. O momento só ela viveu e possui em som, cor e cheiro. Eu me limito a assisti-la, sem querer interromper suas sensações e maldizendo a vontade lhe que possuiu. Tola. Ao invés de só sentir o brilhantismo da percepção da vida, decidiu doar mais um acontecimento à prisão das palavras. E mais tola ainda por não ter pena de mim, pobre criatura, que tive que lidar com o desejo que era dela, tornando minha obrigação a sua regalia. 

Andando por aí a gente acha o mundo todo

Catei memorandos pelo chão. Eles estavam sujos, pareciam pisados. Peguei-os imaginando que pés teriam deixado ali a poeira do caminho onde percorreu. Os pés dentro dos sapatos que trouxeram consigo a poeira. Os donos dos pés que passaram ali pisando nos memorandos vazios. Os plurais caracterizados de pressa, as personificações dos arranjos rápidos e mecanizados. Os memorandos estavam vazios, só com a marca dos sapatos, nada escrito. Fiquei pensando nas mãos, colegas dos pés, que passaram balançando distraídas em cima dos papelotes no chão. Pés que poderiam parar, mãos que poderiam pegar. Memorando que serve pra registrar, guardar, colar. E lembrar. Mas as cabeças donas dos pés e das mãos deixaram de usar o fiar que nossa mente é e se dispuseram a correr e a andar. E a trabalhar. E a passar com um par de sapatos sujos, de pés apressados e de mãos a balançar. Catei os memorando todos, ajoelhando e levantando, dobrando e guardando. Depois de limpar, o registrar. O chão ficou vazio, a passagem agora é livre, mas a memória vai ficar.

Destinado aos desconhecidos

Jogaste fora o que viu em mim. Olhou por um momento e caiu em si. Voltou-se para o tempo louco que o conduzia e que tinha afastado para buscar os detalhes daquela distração. Esqueceu-se do olhar que existiu. E, por fim, saiu da bolha na qual tinha submergido momentaneamente.

Joguei fora o que vi em ti. Olhei por um momento e caí em mim. Voltei-me para o tempo louco que me conduzia e que tinha afastado para buscar os detalhes daquela distração. Esqueci do olhar que existiu. E, por fim, saí da bolha na qual tinha submergido momentaneamente.

Aconteceu contigo e comigo. Contigo para mim e para outros. Comigo para ti e para outros. Eu não me recordo mais do teu rosto, dos teus traços, do teu jeito, tampouco da tez da tua pele e menos ainda do teu olhar. Não lembro se o teu olhar, porque os olhares sempre me disseram mais que qualquer coisa, se mostrava triste, alegre, estranho, confuso, ou outro algo que um olhar possa fazer jorrar. Também não sei por qual razão olhei para ti e imergi na complexidade do teu ser e viver. Mas eu também não quero lembrar. Não me apetece saber que posso conter na memória tal encontro repleto de informações profundas, grandiosas e pertencentes ao conjunto que és tu. Ou cada outro. Torna-se supérflua a presença que um dia tive o cuidado em conter e deslanchar pelas vias do meu pensamento.

O que importa é que tu inegavelmente existes. Trouxe-me a paz quando fez valer tuas cores, sabores ou dissabores incrustados no teu olhar que o meu capturou em uma inesperada atenção. Sei também que tu não és mais um mero número a ser contabilizado nos papéis do mundo e nem só mais um que eu não percebi pela falta de tempo e pelo excesso de gente que se desdobra e corre agitado perante minha frágil passagem. Aquece-me a certeza que agora possuo da tua existência em tal cor, tal jeito, tal olhar e que vive a pensar e ter momentos iguais aos meus, mesmo que ambos sigam lados às vezes completamente diferentes.

Agora tu também sabes que eu existo e vivo a percorrer no mesmo tempo, na mesma velocidade e na igual incerteza do que vem à frente. Pode não perceber, mas sabe.

Prudência deixou-nos surdos de tanto gritar

Vou falar agora brevemente, minha preguiça descomunal fez com que eu deixasse lacunas de pensamento a serem descritas, e eu não lamento por isso. Só quis dar umas palavrinhas porque me faltava o que fazer e havia muito pra pensar.  Separei esse singelo e bonito espaço para discorrer sobre um específico momento: o da impulsão.

Não me entenda mal, quero que você, seja lá quem for ler esse textinho vagabundo e desmazelado, saiba o quão diretas minhas palavras estão sendo. Essa impulsão da qual falo é só o encurtamento da popular frase “agir por impulso”, tão comum a absolutamente todos nós. Agora, sentada sozinha em um banco também comum aos lugares urbanizados que estamos entorpecidamente acostumados a ver, estou a contemplar o congelamento do instante da impulsão.

Parei e pensei. Percebi que não estava pensando no que devia. Continuei parada e concentrei-me em pensar no que deveria ser pensado. Ao início deste ato, me deparei com a minha situação: sentada em um banco comum – que agora está fadado a ser lembrado –, ouvindo sons de um auto-falante preso a um poste de luz, cujas músicas tematicamente selecionadas me irritariam em outra ocasião, mas que agora era uma companhia indiferente perante a perturbação que o pensamento me causara, e parcialmente confusa. E um pouco assustada. Perguntei, cochichando mentalmente a alguma parte de mim, porque eu estava ali. Porque eu tinha saído a esmo de casa e tomado decisões que me colocariam exatamente ali, sentada num banco em companhia das músicas que fatalmente foram jogadas como alimento a um escrito medíocre e enclausurante. Eu não sabia para onde ir, não sabia o que faria e, simples e tropegamente, fui e fiz. Abri a lata de lixo imaginária mais próxima e refiz o ambiente que me continha jogando fora a sensatez que deveria me conduzir, dando as mãos ao impulso inesperado e perigoso. Quando ele chegou, eu nem vi, tampouco pensei. Agora, ao consultar o histórico de minhas ações, abstrai como funcionava aquela impulsão.

Quero ser simples, escrever é um ato que me desagrada – e agrada ao mesmíssimo tempo –, e me cansa. Vou exemplificar tolamente e já peço desculpas se condizer pobremente com o evento em si.

Impulsão se fez parecer uma pancada indolor na mente, que cega sem tirar a visão e descontrola sem tirar o equilíbrio, deixa um branco momentâneo e inexpressível, como se apagasse bruscamente o que havia por ali. E é nesse momento que a ação se realiza.

Mas toda essa ladainha foi ditada para que se varresse a responsabilidade em lidar com o desleixo das ações não-pensadas para debaixo do tapete da impulsão, descaradamente usando-o como desculpa para justificar o saldo final: um banco, um auto-falante e mais nada.

Dessa vez não tem título

É estranho começar de um modo diferente do que eu imaginei: não eram essas as palavras que eu iria usar no início do meu escrito. Eu ia contar uma história, congelar uns momentos e descrevê-los, ia contar o que houve com o meu pensamento no exato momento de cada acontecido, o que meu corpo manifestou ao se deparar com momentos únicos, ia relatar cada pequeno detalhe, tentar expressar da melhor forma o que me afetou e ainda afeta.

Ia dar o primeiro passo e cuspir as primeiras palavras impregnadas de emoção, palavras insuficientes que foram resultado de um árduo esforço em busca da tentativa de explicar o inexplicável, e então, antes disso, me veio na mente a lembrança de que isso tem sido algo frequente. Simplesmente isso: escrever tornou-se frequente sem que eu percebesse. Imaginei o quanto fiz esse exercício de escrever e construir um modo de comunicar pelo menos uma parte daquilo que estava transbordando, ora sufocando, ora extasiando.

Mais além do que pensar na constância do meu ato, me vi perante às suas consequências. E, de repente, não senti mais vontade de pagar o preço. Usei as palavras e me prendi. E me perdi no seu emaranhado, nas suas regras, suas denominações, significados, limitações. Nunca era aquilo, até chegava perto e mostrava uma porta que, ao ser confrontada, dava uma leve sensação daquela coisa inenarrável, mas que nunca foi o suficiente, nunca foi aquilo que sempre será, independente da linguagem ou de qualquer meio de expressão construído e colocado à nossa disposição.

Tanto usei as palavras para isso que chego a pensar que cometi um erro gravíssimo. Eu imortalizei o que senti, joguei minhas sensações em moldes e as formei, dura e limitadamente, prontas para durarem enquanto estiverem vivas em minha memória. Criei-as e tornei-as minhas carcereiras, indubitáveis quase-criaturas que sobrevivem enquanto houver o pronunciamento daquilo que são. E tudo isso foi feito não por capricho ou por uma escolha alegre e despreocupada. Não foi levianamente que dei as cartas para uma autocondenação, foi por insuportável necessidade que tornei-me prisioneira da minha salvação, não suportando a intensidade do que existe e que cega meus olhos de tão reluzente verdade que é, luz que quando entra ocupa cada canto do espaço que pode, ocupa o tempo, o que foi, o que é e o que virá. Após me sentir de tal maneira em várias circunstâncias, não pude mais continuar com toda essa carga nas costas, me sentia infeliz, cansada e acostumada com o peso que carregava, atribuindo esse peso ao próprio viver. Esse peso não podia mais existir, precisava ir embora naquele mesmo momento, sair de qualquer forma, dar lugar à leveza que eu já desconhecia.

Quando dei por mim, estava com as ferramentas nas mãos, lapidando minhas sensações de acordo com as palavras em que elas iriam se alojar e ficar ali, talvez pra sempre. Quanto mais eu fazia, mais me libertava e mais me prendia. A cada novo momento de exasperação, eu usava minha nova ferramenta de escape, jogava usando as regras da linguagem e guardava o resultado embalado lindamente em algum lugar no mundo físico ou na memória. Se tornou um vício, uma droga usada quando eu sentia dor e queria o alívio, a respiração livre, mas que, no entanto, causava dor ao ser tocado. E não era o esforço para achar as palavras certas, elas vinham naturalmente como uma benção, saíam correndo pura e cristalina como a água doce de um riacho estreito: a dor provinha do toque ousado no sentimento latejante, e fazer isto era necessário, tocar para poder transportar.

Transportei, estendi sua durabilidade, limitei sua realidade e guardei sem dar muita importância, como se faz com aquelas coisas velhas que não tem mais utilidade. O tempo passou e como acontecem com as coisas velhas guardadas, em algum momento elas são vistas novamente, contempladas nostalgicamente, trazendo de volta uma nesga da sensação que foi transposta ali no auge da sua intensidade.

Segundos antes de dar o primeiro passo e cuspir as primeiras palavras impregnadas de emoção, o enorme cansaço inconsciente fez eu me dar conta da minha condição: condenada a viver carregando um livro de alma, com recortes de experiências congeladas e simbolicamente transformadas. Toquei o que estava puro, senti dor durante o processo, pensei que estivesse me livrando do que me sufocava, tive a ilusória sensação de estar livre de alguma coisa por alguns instantes, mas é só me deparar com a espécie de livro empoeirado que construí e vejo as grades me impedindo de escapar do que já vivi, as palavras todas enfeitadas do lado de fora, me obrigando a assistir seu espetáculo tão formosamente criado por mim e que eu continuo a criar mesmo conhecendo todas as falhas do processo. Faço porque foi a única saída que eu encontrei pra encontrar a mim mesma, mesmo que seja um eu com um livro velho nas mãos, cheia de momentos guardados pra contar.

Agora, no fim, estive a pensar no que acabei de fazer. Ia escrever, decidi não o fazer e, no entanto, o fiz. Ia compactar em palavras algo que já não aguento mais carregar em totalidade. Parei. Pensei. Desisti, não valia a pena, mas o impulso agoniado do vício arraigado em mim realizou seu papel com um outro argumento. Não é por arrependimento de ter escrito as linhas acima que pensei nisto agora, é por alívio de não ter tocado no que não valia a pena e ter menos um saco de palavras indesejáveis pra reviver.

Complexina

Um dia, do nada, senti a vontade e acendi uma vela, olhei o fogo. Ao ver o fogo, eu vi passar aos borbotões os pensamentos que se seguem.

Tudo o que eu tenho além de mim mesma é aquilo que eu posso fazer. Então eu fiz fogo.

Há um tempo atrás, eu pedi com toda a força e desejo coisas difíceis que não me trariam paz, pelo contrário! Trazem a tempestade consigo, a insegurança, a incerteza, e ao mesmo tempo a felicidade, a completude. E eu quero tanto isso, a completude, tanto que eu ignorei todos os outros contras embutidos no que me viria. Pedi com lágrimas nos olhos e uma dor no peito, pedi com tanta força que doeu em cada poro do meu corpo. Não sabia a quem direcionar o meu pedido, então joguei meu desejo ao vento em gritos sussurrados, em suspiros de sofrimento e perdidão. E eu sabia que se viesse, seria assim. 

Tal foi a minha força ao clamar minhas vontades que elas vieram trôpegas e confusas. Experimentei o mais doce primeiro, lambuzei-me com o açúcar que estava ali para mim. Satisfeita fiquei ao ver que estava finalmente sentindo o gosto daquilo que tanto quis. Era um sabor doloroso, que doía quando tocava na língua, mas era o paraíso! Comi todo o doce até que fiquei cega com o meu intenso deleite. E quando pus a mão para pegar mais, a mão foi espetada com o ônus da coisa. Foi dilacerante, fui me machucando aos poucos, mas continuei a por a mão sem medo de me machucar e sangrar até não aguentar mais, porque no fundo eu sabia, tinha a certeza que lá no fundo tinha mais daquilo, só que mais suave, escondido e que ele se estendia até a infinidade do tamanho do recipiente que o continha. 

Mas os cortes abafados começaram a latejar de medo de serem descobertas e expostas, nem mesmo essas células queriam a dor que eu estava disposta a receber, estavam loucas da loucura que as transformaram. E então eu parei e pensei no fogo.

Quis queimar a minha fraqueza e com o fogo, quem sabe, eu poderia também ferver um líquido analgésico, fazer uma poção da coragem, mornar o que esfriou e aliviar o dolorido de viver.

É a tentativa de me salvar sozinha de uma armadilha que eu mesma quis entrar só pela vontade de sentir.

Só não pode ‘des’istir

Não é muito bom falar do desespero, do desesperador e da desesperança. Da desigualdade, deslealdade, ou da desumanidade.

E desde muito tempo eu venho trabalhando a pregação do amor dentro do meu próprio ser e me negando a falar nisso, negando o pensamento já iminente, pronto pra explodir e me fazer cair no chão com o impacto. É fácil deixar o amor entrar e sair, deixar o canto da alegria reverberar e fazer tremer tudo lá dentro. É fácil, tão fácil quanto abrir a boca e falar ou abrir os pulmões pro ar, mas ignorar o pensamento dessas questões é sôfrego e pertuba, e pensar neles queima, arde e usa o amor como combustível, a insatisfação explode em chamas alimentadas por um amor que quer a melhora, que quer sorrisos e não esses “des” agindo sobre o mundo. É assustador. Eu tenho estado assustada, afobada, descontrolada. Os limites já se quebraram e se confundem com o que havia fora e com o que há dentro, assim como pedaços de limite foram embora com algo que estava dentro e outros pedaços até se encravaram em uma espécie de núcleo, fincaram fortemente e adentraram pra sabe se lá onde com coisas que estavam fora. 

Se é confuso? Ora, claro que é! E eu estaria escrevendo agora se não fosse? Não. Eu nem estaria me questionando, duvidando, acreditando e jogando fora o que eu já não aceitava mas recusava largar. Quem sabe eu estivesse mais feliz do que eu já sou (sim, porque sou), estaria menos atormentada por questões difíceis e fora do meu alcance de resolução. 

Às vezes, durante meus devaneios, na minhas caminhadas nas ruas e nos lugares, eu observo o mundo ao redor como uma estranha, como alguém que nunca esteve ali e desconhece cada objeto. Como, por que, quando, pra quê chegamos aqui e estamos aqui? Estamos vivendo baseados nesses motivos, nesses propósitos? Se não, por que não? Por que há coisas tão básicas que o ser humano fecha os olhos e ignora sem quase nenhum pesar? Decisões simples e fáceis são substituídas por complexos sistemas sinuosos e todo mundo aceita porque é justamente isso: a maioria aceita e esmaga a minoria que grita, que discorda, que quer simplicidade, naturalidade e pureza nos atos. É tão doloroso chegar à certas conclusões pra a última pergunta posta que eu sinto dificuldade em aceitar. 

É o dinheiro? É o conforto? É o poder? É isso que faz a maioria esquecer propósitos tão claros, fechar os olhos pra fingir não está vendo o que existe frente à face? Já me disseram, muita gente já me disse que sim, pode ser isso, e talvez até seja! Mas será mesmo? Será que existe tamanha estupidez a ponto de se contentar com a efemeridade do prazer na obtenção de pequenos luxos como carro, casa grande e cada vez maior, e com tanto pedaço de papel que anda valendo mais do que a vida em certos casos? Vejo gente tratando o tempo como algo eterno, perdendo os segundos preciosos e fazendo coisas que não gostam em absoluto só pra poder viver nessa selva imitada, nessa confusão do falso verde, pedindo por conforto e acomodação, por uma vida baseada em ter e dizer que tem, em mostrar e esfregar no rosto alheio a vitória, mesmo que infeliz, mesmo que dolorida e vazia. É com suor e cansaço escorrendo pelo rosto e o ter nas mãos que a maioria sobrevive, com um sorriso falso e uma risada estridente sem alegria, com mentirinhas “necessárias” e ideais tão embasados quanto o vento no ar. 

Eu já não sei mais o que dizer e muito menos o que fazer praticamente pra mudar algo, só sei que continuo agindo com o que tenho em mim ao meu redor sem desistir e nem ao menos pestanejar. E volta e meia parece que o Universo sente minha angústia e coloca nos cruzamentos da vida pessoas que ensinam e compartilham, pensam e falam, inspiram. Nesses momentos o amor queima e fomenta a luta contra os “des”, só pra que eu possa oferecer a todos ao menos uma fração do equilíbrio de um mundo onde as verdadeiras importâncias vigoram. 

Acreditando que é pra valer

02:55. Meus olhos estão fechados esperando o tão aguardado sono vir bater o ponto e cumprir sua tarefa diária: descansar meu corpo e minha mente do dia comprido, cheio de experiências e por vezes até cansativo.

02:57. A cabeça repousa no travesseiro e o corpo coberto pelo fino lençol que não faz nada além de proporcionar uma falsa e frágil proteção. Não é por frio que eu o uso, e muito menos por calor. É por uma certa carência, pela necessidade de proteção, de aconchego. O engraçado é eu procurar isso em um fino cobertor. Ao mesmo tempo, os pensamentos correm livres dentro da minha mente irrefreável, os olhos fechados ajudam a aumentar o campo por onde eles correm: é um negro infinito, um escuro onde não existem muros, grades ou correntes, nenhum tipo de amarra. Então eles aproveitam o momento gracioso e surgem de todos os tipos e tamanhos: pensamentos de vida, pensamentos de morte, pensamentos do hoje, do amanhã, do ontem e daqueles dias que talvez nunca chegarão.

Em alguns milésimos de segundo, que supostamente pelas minhas contas, foi às 02:59, eu abri os olhos. Não sei ao certo porque o fiz, não faço ideia. Talvez meus pensamentos tenham ido longe demais e o meu senso de realidade alertou algo na minha consciência ainda desperta. Abrir os olhos foi como voltar para o realismo, para a minha cama, para o meu lençol fino, pro meu travesseiro. Pode até ser que eu suspeite qual pensamento eu quis parar, frear com brutalidade a fim de esquecê-lo, mas seja lá qual tenha tenha sido, ele se perdeu diante do que meus olhos contemplaram ao se abrir: a simplicidade e, contraditoriamente, a magnitude de uma luz.

Abri os olhos e um raio de luz caia exatamente no pedaço de travesseiro frente ao meu nariz. E eu então eu pensei: “Que luz é essa?!”. Levantei a cabeça, sacudindo o pouco do sono que já havia chegado e procurei.

Achei. Olhei para o janelão que sempre fica aberto na esperança de uma brisa noturna e lá estava ela: a Lua.

E então você, que está lendo nesse exato momento, pode até se surpreender e pensar: “Tudo isso porque ela viu a luz da Lua?”. E é como réplica a esse pensamento que seguem as linhas abaixo.

A nossa atual civilização nos proporciona a quase indispensável energia elétrica, e por conseguinte a luz elétrica. É só cair a noite e os “civilizados” acendem suas lâmpadas e usufruem de uma luz completamente artificial. Aí eu percebi que nunca, em todos os meus singelos 18 anos e poucos meses de vida, tinha visto a pura luz da lua. Só ela, mais nada.

Imediatamente brinquei com aquele raio sereno, frio, fraco, porém indubitavelmente presente. Encaixado entre a abertura no muro da minha casa e as paredes vizinhas, um minúsculo quadrado de céu e ela coube ali, redondamente perfeita.

Me senti maravilhada, em uma felicidade pura, simples, experimentei a alegria de uma descoberta pessoal, que imagino ser a que os bebês experimentam ao longo da sua jornada até a completa ciência das coisas. Foi simples, foi rápido, a luz só ficou ali alguns instantes. Às 02:59 eu a vi e às 3h e pouco ela já tinha saído do encaixe quadrado.

Não deu tempo pra pensar. Aliás, pensar pra quê? Passo o dia todo pensando e nesses minutos que considero abençoados por alguma força universal, me vi completa e feliz, sem a necessidade de qualquer grande conhecimento, de complexos pensamentos.

Já passam das 3h30 e eu continuo escrevendo. Não digitando no emaranhado de letras do teclado de um computador, e sim escrevendo. Punho e grafite arriscando uma melodia junto com o papel, no escuro. É claro como a luz da Lua que é no escuro, ou você acha que eu ia acender a lâmpada e escrever sobre a maravilha de uma luz quase desconhecida? Não, seria hipocrisia da minha parte.

Foi nesse intervalo de alguns minutos nessa determinada hora da madrugada. Eu percebi que não é preciso muito pra sentir alegria, sentir felicidade, que não é necessário uma tonelada de conhecimento e de convencionalidades humanas pra preencher um vazio. A descoberta de algo que sempre esteve lá, mas que eu nunca vi, faz muito mais que isso. Algo como a luz pura da lua, só ela, tímida e calma na escuridão e na imensidão do espaço, um alento e companhia para os insones.

E depois disso tudo, eu vou ser eternamente grata àquele pensamento, seja lá qual foi, que me fez abrir os olhos na hora certa e no minuto mais que certo.

Quase um embalador à vácuo

Quando se trata disso, eu não sei o que dizer. Só me sinto um bichinho medroso correndo pra algum lugar seguro, com medo de ser machucado, maltratado. Só que aí aparece alguém que chega perto desse cantinho e começa a conversar, como se não quisesse nada. Ele fora e eu dentro, acuada. Logo ele começa a olhar esse meu canto e percebe que lá é muito pequeno, abafado, então diz: “Você não quer vir cá pra fora? É mais fresco, mais claro.” A vontade é de ir, de ver as coisas bonitas lá fora, mas eu, desconfiada e medrosa, digo que não. A todo momento, penso que a pessoa vai embora, que então o cantinho vai continuar sendo aquele sombrio de sempre, mas para a minha surpresa não é isso que acontece. Ele continua ali e fala sobre coisas novas, me faz rir, faz sentir um calor acolhedor dentro do peito. Nesses momentos me torno uma pessimista incurável e penso que aquilo vai acabar logo, que em breve ele cansa e vai embora procurar outro canto pra olhar dentro. 

Então ele chama de novo e dessa vez eu vou. Ele me acolhe e me abraça como se nada pudesse me atingir, como se o mundo fosse pequeno demais, insignificante demais diante daquele abraço, como se os dois perfumes mesclados formassem uma barreira indestrutível. E o medo vai embora. O frio vai embora. E vai ficando mais confortável, morno, aconchegante, eu começo a sentir algo lá dentro, algo que não sei o que é, mas que é bom. Dói um pouco de tão bom que é. E é tão bom que mesmo que eu saiba o que dizer, vou escolher um sorriso e um olhar ao invés de todas as palavras de todos os dialetos que existem no mundo.

Uma respiração que seja verdadeira

A vontade apareceu, apertou, chamou e eu pedi pra esperar. Eu quis abrir a mente, abrir o coração, limpar a alma colocando aquele peso pra fora de mim, mas pedi pra esperar. E sentei num canto qualquer em cima de qualquer coisa num lugar qualquer no apertado que é em mim, olhando pra uma janela que não se sabe que paisagem mostra, esperando algo que não se sabe o que é. 

E no ápice daquilo que deve ser a dor, eu me joguei na confusão, na falta de tempo, nas tarefas tão organizadas prontas pra cumprir o objetivo de não me deixar pensar, de não deixar a dor chegar perto de mim, me coloquei tão estrategicamente em lugares e horários que são perfeitos pra me fazer chegar exausta em casa. Eu disfarcei minha dor com a hipnose que criei para mim, deixando as vontades esperarem e não deixando meus pés tocarem no chão. Um chão fumegando realidade.

Abençoado seja o alguém que me falou: “Você precisa colocar os pés no chão.”