A complexidade do complexo
Eu ofereci fogo ao Universo.
Tudo o que eu tenho além de mim mesma é aquilo que eu posso fazer. Então eu fiz fogo.
Pedi para que ele usasse esse fogo e queimasse minha fraqueza, extirpasse minhas dores. Pedi a largueza do fogo, o poder de alastramento do mesmo, que todo o seu simbolismo viesse para minhas mãos e me enfortecesse.
Há um tempo atrás, eu pedi com toda a força e desejo coisas difíceis que não me trariam paz, pelo contrário! Trazem a tempestade consigo, a insegurança, a incerteza, e ao mesmo tempo a felicidade, a completude. E eu quero tanto isso, a completude, tanto que eu ignorei todos os outros contras embutidos no que me viria. Pedi com lágrimas nos olhos e uma dor no peito, pedi com tanta força que doeu em cada poro do meu corpo. Não sabia a quem direcionar o meu pedido, então joguei meu desejo ao vento em gritos sussurrados, em suspiros de sofrimento e perdidão. E eu sabia que se viesse, seria assim.
Tal foi a minha força ao clamar minhas vontades que elas vieram trôpegas e confusas. Experimentei o mais doce primeiro, lambuzei-me com o açúcar que estava ali para mim. Satisfeita fiquei ao ver que estava finalmente sentindo o gosto daquilo que tanto quis. Era um sabor doloroso, que doía quando tocava na língua, mas era o paraíso! Comi todo o doce até que fiquei cega com o meu intenso deleite. E quando pus a mão para pegar mais, a mão foi espetada com o ônus da coisa. Foi dilacerante, fui me machucando aos poucos, mas continuei a por a mão sem medo de me machucar e sangrar até não aguentar mais, porque no fundo eu sabia, tinha a certeza que lá no fundo tinha mais daquilo, só que mais suave, escondido e que ele se estendia até a infinidade do tamanho do recipiente que o continha.
Mas - porque sempre tem um mas -, as feridas que já existiam antes começaram a latejar de medo de serem reabertas, nem essas células queriam a dor que eu estava disposta a receber, elas começaram a soltar berros de agonia e medo, loucas da loucura que as transformaram. E então eu parei. E então eu fiz o fogo.
Quero queimar a minha fraqueza e com o fogo, quem sabe, eu poderia também ferver um líquido analgésico, fazer a poção da coragem, esquentar o que esfriou dentro de um ser dolorido de viver. É a tentativa de me salvar sozinha de uma armadilha que eu mesma quis entrar só pela vontade de sentir.
Cuidado com o que deseja e com as palavras que profere ao vento e aos outros porque você pode ter, então pense: você sabe ter? O que você quer é proporcional ao que você suporta ter? E você está disposto a deixar isso entrar, te encher com tudo o que é composto e transbordar? Você aguenta o afogamento por sobejamento?
Eu sabia que não suportava, mas mesmo assim eu pedi porque tão grande era o meu querer que ele me fazia tremer só em pensar. Mas recorrer ao fogo eu também não suporto, ao mesmo tempo que ele destrói o que te faz mal, o contato arde e te faz querer morrer.
No final das contas, acho que fomos feitos para querer o que não podemos suportar e quando o temos, é o transbordamento que revira nossos olhos de prazer e satisfação. Então soltamos um viva para a vida!




